Diabetes gestacional

29 de julho, 2019
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Por Fábio R. Cabar (ginecologista e obstetra, advogado e professor de Obstetrícia)

Diabetes gestacional refere-se a uma situação em que a mulher apresenta hiperglicemia que foi detectada pela 1ª vez durante a gravidez, mas que os níveis glicêmicos no sangue não atingem os critérios diagnósticos para diabetes mellitus. A definição aplica-se independentemente do tratamento necessário ou da persistência da hiperglicemia após a gestação.

Diabetes Mellitus

Diabetes mellitus diagnosticado na gestação (chamado de overt diabetes), por sua vez, está relacionado à mulher que não tinha diagnóstico prévio de diabetes mellitus e que apresentou hiperglicemia durante a gravidez e seus níveis glicêmicos sanguíneos atingem os critérios da Organização Mundial da Saúde para o diabetes mellitus fora da gestação.

Incidência

A incidência do diabetes gestacional varia no mundo (de 3 a 12%), dependendo das populações estudadas; no Brasil, cerca de 7% das gestantes apresentam esta alteração metabólica. Durante a gestação, o organismo materno sofre diferentes alterações metabólicas na primeira e na segunda metades da gestação, a fim de oferecer nutrição adequada ao feto que está em desenvolvimento.

Na primeira metade da gestação ocorre a diminuição em cerca de 10 a 20% dos níveis glicêmicos maternos, alteração devida ao aumento da secreção pancreática de insulina decorrente do aumento do estrogênio e da progesterona. Apenas a glicose atravessa livremente a placenta, e o feto é o responsável pela produção da insulina necessária para manter equilibrado o seu metabolismo. Dessa forma, nesse momento da gestação, notam-se a diminuição da glicemia materna de jejum, diminuição da produção hepática de glicogênio e aumento no seu armazenamento.

Por outro lado, na segunda metade da gestação, com o intuito de promover o crescimento fetal adequado, ocorre aumento da resistência periférica à insulina na gestante, graças ao aumento da produção placentária de hormônios contra insulinêmicos, especialmente o lactogênio placentário.

Leia também: Entenda o que é gestação pré-termo, a termo e pós-termo.

Fatores de risco

São considerados fatores de risco para o diabetes gestacional: idade materna mais avançada (acima de 25 anos), ganho de peso excessivo durante a gestação, sobrepeso ou obesidade, síndrome dos ovários policísticos, história prévia de filhos nascidos com mais de 4 kg, história de diabetes gestacional prévio, história familiar de diabetes em parentes de 1º grau, hipertensão arterial sistêmica e gestação múltipla.

Entretanto, a presença de fatores de risco não é mais utilizada para o rastreamento desta doença, visto que não há método de rastreamento efetivo para apurar todos os casos de diabetes gestacional.

Leia também : Mortalidade materna.

Diagnóstico

O diagnóstico do diabetes gestacional é realizado com testes de sobrecarga de glicose ou glicemia de jejum. Os testes de sobrecarga exigem preparo prévio, jejum de 8 a 12 horas e repouso por um período de 2 a 3 horas após a ingestão de 75 ou 100G de glicose. Boa parte das gestantes abandona esse exame, pois de 20 a 30% delas sofrem com náuseas e vômitos durante sua realização.

Recomendações do Ministério da Saúde 

Sendo assim, de acordo com recomendações do Ministério da Saúde do Brasil, toda gestante deve realizar um exame de glicemia antes da 20ª semana da gestação, o quanto antes possível. Se o resultado deste  exame estiver normal, (resultado menor que 92 mg/dl), a gestante deverá realizar teste de tolerância de glicose com 75g de glicose entre a 24ª e a 28ª de gestação. Resultados de glicemia de jejum acima de 91 mg/dl indicam alteração no exame, podendo representar diabetes gestacional (valores entre 92 e 125 mg/dl) ou diabetes pré-gestacional (valores superiores a 125 mg/dl).

Controle do diabetes gestacional 

O controle do diabetes gestacional é feito, na maioria das vezes, por meio de dieta adequada e realização de atividade física. Aquelas gestantes que não chegam a um controle adequado com essa primeira abordagem terapêutica têm que utilizar insulina, já que o uso da insulina é seguro durante a gestação; o objetivo do tratamento é a normalização da glicemia materna, ou seja, manter níveis de glicose menores que 95 mg/dl (no jejum) e menores que 140 mg/dl (uma hora após as refeições).

Controle glicêmico 

O controle glicêmico rigoroso na pré-concepção e durante a gestação associa-se a menos morbimortalidade perinatal. Quando presente no momento da concepção (fertilização) e no primeiro trimestre da gravidez, a hiperglicemia materna pode afetar a organogênese e provocar abortamentos, malformações congênitas e restrição do crescimento fetal (isso ocorre principalmente no diabetes mellitus pré-gestacional, seja do tipo 1 ou 2).

Mais tardiamente, no segundo e terceiro trimestres, a hiperglicemia resulta em hiperinsulinemia fetal e macrossomia (peso ao nascimento de pelo menos 4.000 g). A macrossomia predispõe a lesões do parto, especialmente distocia de ombro, alto risco de lesão do plexo braquial, fraturas de clavícula ou do úmero, asfixia perinatal e, menos frequentemente, hemorragia subdural e paralisia facial.

Além disso, recém- nascidos de mães diabéticas representam grupo de risco específico de hipoglicemia precoce,  distúrbios respiratórios, policitemia, hiperbilirrubinemia, disfunção miocárdica, trombose da veia renal, prematuridade e asfixia perinatal.

O histórico de diabetes gestacional é um importante fator de risco para desenvolvimento de diabetes tipo 2 ao longo da vida adulta; assim, aproximadamente 6 semanas após o parto, a mulher que teve diabetes gestacional deve realizar um novo teste oral de tolerância à glicose.

Quer saber mais sobre a especialidade? Confira: Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia.

 

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